Indicador: violência e regrasPublicado em 19/10/2026
Forças armadas e policiais na disputa política
Na Alemanha de 1933 e 1934, a Reichswehr jurou lealdade à pessoa de Hitler e a polícia prussiana apoiou a SA e a SS. No Brasil, as fontes mostram militares em cargos civis, uma doutrina constitucional sobre o papel das Forças Armadas e condenações de dirigentes da PRF e da PM-DF. O que a comparação mostra e o que ela não permite afirmar?
1 · O mecanismo
A força armada como parte da disputa
Quando forças armadas ou policiais deixam de ser instrumentos neutros do Estado e passam a atuar, por ação ou omissão, a favor de um lado da disputa, o resultado eleitoral e a ordem institucional dependem de quem porta armas. Na grade de Levitsky e Ziblatt, isso se liga à tolerância ou ao estímulo à violência e à rejeição das regras do jogo (LEVITSKY; ZIBLATT, 2018).
Este artigo evita repetir o Artigo 4, que tratou dos comandantes militares em dezembro de 2022. Aqui o foco é o papel institucional das forças: presença em cargos civis, doutrina constitucional e uso de polícias em momentos de votação e de ataque à sede dos Poderes.
2 · O caso alemão
1933 e 1934
No gabinete formado com a nomeação de Hitler, o general Werner von Blomberg torna-se ministro da Reichswehr. Segundo a Wikipédia, Hindenburg o escolheu sem consultar o chanceler anterior, Schleicher, e impôs o nome a Hitler. A data do juramento de posse diverge entre as fontes (ver nota de método). Blomberg defendeu a autonomia militar contra a SA e promoveu a nazificação da tropa (DHM; WILDT, 2012; WIKIPEDIA).
Göring, ministro do Interior da Prússia, manda a polícia não obstruir e apoiar a SA e a SS (USHMM). Foi criada uma polícia auxiliar (Hilfspolizei) recrutada na SA, SS e Stahlhelm. As fontes divergem quanto à data (22 ou 23 de fevereiro) e ao efetivo (cerca de 40 mil ou 50 mil).
No dia da morte de Hindenburg, os soldados juram obediência incondicional a Hitler como Führer do Reich e comandante supremo. Antes, as forças respondiam ao presidente. A lei que reuniu presidência e chancelaria foi assinada em 01/08/1934 e vigorou em 02/08. Segundo a Wikipédia, a iniciativa do juramento foi de Blomberg e de Reichenau (GHDI).
Sobre a SA, as estimativas de segunda mão apontam cerca de dois milhões de membros em janeiro de 1933 e mais de três milhões ao fim do ano (Wikipédia, citando Britannica e Kershaw), valores que não foram conferidos em fonte primária.
3 · O caso brasileiro
2020 a 2025
Na ADI 6457 (PDT), o ministro Fux concede liminar com interpretação conforme à Lei Complementar 97/1999: as Forças Armadas não exercem poder moderador, a chefia é limitada e o emprego por GLO é excepcional e subsidiário. A liminar foi submetida a referendo do Plenário (DIÁRIO DO NORDESTE, 2020; MIGALHAS, 2020).
O Tribunal de Contas da União apresenta levantamento sobre militares em cargos civis: 2.957 em 2016, 3.020 em 2017, 2.765 em 2018, 3.515 em 2019 e 6.157 em 2020. A contagem inclui ativos e inativos e não traz custo (TCU, 2020; CAVALCANTI; VICTOR, 2020).
No segundo turno, a PRF realiza operações em ônibus de eleitores, concentradas no Nordeste. Segundo dados do Ministério da Justiça, 2.185 ônibus foram fiscalizados e 48 retidos na região. Moraes mandou suspender as blitze. Silvinei Vasques, então diretor da PRF, declarou voto em Bolsonaro em 29/10/2022 (CONGRESSO EM FOCO; PODER360, 2025).
Conclui-se o julgamento de mérito da ADI 6457, iniciado em 29/03/2024. A tese relatada pela imprensa é a de que as Forças Armadas não têm poder moderador, o presidente não pode usá-las contra os Poderes e a GLO é excepcional. O Lex relata unanimidade, e a InfoMoney registra que Barroso acompanhou o relator parcialmente (LEX; INFOMONEY, 2024).
A 1ª Turma do STF, em sessão virtual, forma maioria para condenar a 16 anos cinco ex-integrantes da cúpula da PM-DF, entre eles o ex-comandante-geral Fábio Augusto Vieira, por conduta omissiva dolosa nos ataques de 8 de janeiro. O início do cumprimento das penas foi determinado em 12/03/2026 (SBT NEWS, 2025; STF, 2026).
A 1ª Turma conclui o julgamento do núcleo 2 e condena Silvinei Vasques a 24 anos e 6 meses de prisão, com relatoria de Moraes (MIGALHAS, 2025; DIÁRIO DO PODER).
4 · Onde a comparação falha
As diferenças que pesam
Objeto do juramento. Na Alemanha, a tropa jurou lealdade à pessoa do chefe. No Brasil, as fontes lidas tratam de uma doutrina que afirma o contrário (as Forças Armadas não são poder moderador), reafirmada em liminar de 2020 e em julgamento de mérito de 2024.
Presença em cargos civis. O dado do TCU mostra aumento de militares em cargos civis. Ele não prova uso político da tropa, e a contagem inclui inativos. O levantamento é um memorando da área técnica do TCU, e não um acórdão.
Resultado institucional. A operação da PRF foi suspensa por ordem de Moraes e o ex-diretor foi condenado. A cúpula da PM-DF também foi condenada. Na Alemanha, as fontes lidas não registram sanção a quem usou a polícia ou a tropa a favor do regime.
Escala e papel. A SA tinha, segundo estimativas, milhões de membros e funções de polícia auxiliar. As fontes brasileiras lidas descrevem policiais de órgãos regulares, condenados por ação ou omissão, e não milícias partidárias.
Limites das fontes. A maior parte dos dados brasileiros vem de imprensa, e não do STF. Os livros de Wheeler-Bennett, Kershaw e Müller foram vistos apenas como indicações da Wikipédia. A fonte da tese oficial de 2024 não foi localizada.
5 · A resposta da democracia
O que sancionou e o que ficou aberto
No caso brasileiro lido, a resposta combinou decisões do STF sobre limites constitucionais, suspensão de ato em curso e condenação de dirigentes. O que as fontes não esclarecem é o efeito dessas decisões sobre a cultura interna das corporações.
Opinião desta série, e não fato: a lealdade da força armada é testada em dois momentos, na recusa de ordem ilegal e na omissão quando a ordem é de não proteger. Seria evidência contra a leitura benigna se novas ocupações de cargos civis por militares voltassem a crescer sem controle ou se corporações policiais descumprissem ordens de proteção da votação. Seria evidência a favor se a punição de dirigentes fosse acompanhada de regras de carreira e de comando que reduzissem a margem de discricionariedade política.
Pergunta ao leitor: a sanção individual de comandantes basta, ou o desenho das carreiras e da quarentena entre farda e cargo político precisa mudar?
Fontes
Referências
CAVALCANTI, Lucas; VICTOR, Nicolas. Bolsonaro mais que dobrou contingente de militares no governo, aponta TCU. Poder360, 17 jul. 2020. Disponível em: poder360.com.br. Acesso em: 19 out. 2026.
CONGRESSO EM FOCO. Silvinei Vasques, ex-diretor da PRF, é preso em operação sobre interferência nas eleições. Disponível em: congressoemfoco.com.br. Acesso em: 19 out. 2026.
DEUTSCHES HISTORISCHES MUSEUM. Das Kabinett Adolf Hitlers am Tag der Ernennung in der Reichskanzlei. LeMO. Disponível em: dhm.de. Acesso em: 19 out. 2026.
DIÁRIO DO NORDESTE. Ministro do STF descarta poder moderador das Forças Armadas. 12 jun. 2020. Disponível em: diariodonordeste.verdesmares.com.br. Acesso em: 19 out. 2026.
DIÁRIO DO PODER. STF condena Silvinei Vasques a 24 anos e 6 meses de prisão. Disponível em: diariodopoder.com.br. Acesso em: 19 out. 2026.
GERMAN HISTORY IN DOCUMENTS AND IMAGES. The Reichswehr swears an oath of allegiance to Adolf Hitler on the day of Hindenburg's death (August 2, 1934). Washington, DC: German Historical Institute, [s.d.]. Disponível em: germanhistorydocs.org. Acesso em: 19 out. 2026.
INFOMONEY. Agência Brasil. 31 mar. 2024. Disponível em: infomoney.com.br. Acesso em: 19 out. 2026.
LEX. Por unanimidade, ministros do STF rejeitam tese de poder moderador das Forças Armadas. Disponível em: lex.com.br. Acesso em: 19 out. 2026.
LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
MIGALHAS. Não são poder moderador, diz Fux sobre uso das Forças Armadas para garantia da ordem. 13 jun. 2020. Disponível em: migalhas.com.br. Acesso em: 19 out. 2026.
MIGALHAS. Por unanimidade, 1ª Turma do STF condena núcleo 2 da trama golpista. Dez. 2025. Disponível em: migalhas.com.br. Acesso em: 19 out. 2026.
PODER360. Silvinei foi condenado por tentar impedir votos no Nordeste; relembre. 26 dez. 2025. Disponível em: poder360.com.br. Acesso em: 19 out. 2026.
SBT NEWS. STF forma maioria para condenar ex-cúpula da PM do DF por omissão nos atos de 8/1. Dez. 2025. Disponível em: sbtnews.sbt.com.br. Acesso em: 19 out. 2026.
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. STF determina início do cumprimento da pena de ex-integrantes do comando da PMDF condenados pelos atos de 8 de janeiro. Brasília, 12 mar. 2026. Disponível em: noticias.stf.jus.br. Acesso em: 19 out. 2026.
TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO. Memorando nº 57/2020-Segecex. 17 jul. 2020. Publicado por ConJur. Disponível em: conjur.com.br. Acesso em: 19 out. 2026.
UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. Nazi political violence in 1933. Holocaust Encyclopedia, 2019. Disponível em: encyclopedia.ushmm.org. Acesso em: 19 out. 2026.
WIKIPEDIA. Werner von Blomberg; Hilfspolizei; Sturmabteilung; Law Concerning the Head of State of the German Reich. Disponível em: en.wikipedia.org. Acesso em: 19 out. 2026.
WILDT, Michael. Machteroberung 1933. Informationen zur politischen Bildung, bpb, 24 maio 2012. Disponível em: bpb.de. Acesso em: 19 out. 2026.
Nota de método: os dados alemães sobre Blomberg, a Hilfspolizei, a SA e a lei de 1934 vêm em parte da Wikipédia, usada como índice de obras (Wheeler-Bennett, Kershaw, Evans, Müller, Littlejohn, Steiner), que não foram abertas e devem ser conferidas. A Wikipédia indica 29/01/1933 para a posse de Blomberg, e o DHM e Wildt o colocam no gabinete de 30/01. A Hilfspolizei tem 22/02 (Wikipédia) e 23/02 (Wildt), com efetivos de 40 mil ou 50 mil. O texto integral do juramento de 1934 não foi verificado. Nenhuma fonte primária do STF ou do TCU foi aberta para as penas e as decisões, e os dados brasileiros vêm de imprensa e do memorando do TCU. A data de 16/12/2025 da condenação de Silvinei vem do Migalhas e do Diário do Poder (o Poder360 foi lido apenas para outros dados). O placar final da PM-DF e o fim da sessão virtual devem ser conferidos em fonte do STF. A unanimidade da ADI 6457 em 2024 é relato do Lex, e a InfoMoney aponta Barroso parcialmente. Esta série evita repetir o Artigo 4 (comandantes em dezembro de 2022). Alguns títulos e datas de reportagens foram reconstituídos e devem ser conferidos.